Ele queria mais tempo... Mais tempo pra sonhar sem culpa, pra
sorrir à toa, pra cantar alto no chuveiro... Queria oportunidades
para olhar o céu estrelado por trás das luzes da cidade, para o céu
estrelado no rosto de cada pessoa, e cada pessoa estava mais
apagada e cinzenta de poluição... Queria jogar fora o celular, o
computador, o Ipod, o carro que nem nas comédias românticas
americanas. Queria namorar o amor, amar a vida, viver... E viver
certamente deveria ser mais do que essa sucessão de eventos sem
importância, de caminhos confusos, de asfalto. Não, com certeza,
viver era muito mais o vôo livre do pássaro, o céu limpo após a
chuva, a planta crescendo, a pureza da paz, uma paz inatingível que
já não há mesmo quando a guerra não é armada. Paz, essa palavra
indefinida, que no dia-a-dia dos poetas faz rima com milhares de
sílabas doces, e no dia-a-dia dos dias atuais, serve apenas pra
vender a próxima invenção ansiolítica. Ele queria, queria muito.
Até que desejou querer menos, sentir menos, viver menos... Até que
um dia virou pó, e o vento o levou pra ser resquício de areia no
castelinho que a criança fez na praia. E nos olhos da criança
estava tudo o que ele sempre quis.
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